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HISTÓRIA Teatro Esther de Carvalho HISTÓRIA DA SALA
Na segunda metade do século XIX assiste-se, um pouco por todo o país, a um recrudescimento da consciência da cidadania. Correspondendo aos apelos sócio-culturais da vanguarda anti-realista, grupos de homens bons vão criando pequenas associações culturais, que se vão instituindo localmente como embriões da expansão do velho anseio republicano da "Instrução Nacional". Por todo o lado se formam agremiações, apostadas em fomentar actividades culturais dinamizadoras da vida social e cívica das comunidades locais. De entre essas actividades destaca-se o teatro, pelo seu papel preponderante e catalisador. As pequenas localidades de província empenham-se na criação dos seus espaços teatrais, à imagem do seu émulo garrettiano e lisboeta. Os espaços que se dedicam à prática do teatro, nunca são espaços desperdiçados, pois têm a acrescida vantagem de cumprir outras funções, desde salões de festa a salas de debate e de associação, tão ao gosto e ao jeito do ideário da época. Montemor-o-Velho era, nessa época, uma pequena sede administrativa de um concelho agrícola produtivo. Em 1883 é formado o Montepio Recreio e Instrução, que aluga uma antiga capela na rua principal da vila à Confraria de Nossa Senhora dos Campos. Estava assim definido o espaço que viria a ocupar o futuro Teatro Esther de Carvalho. Poucos anos depois, já na viragem do século, processar-se-ia a adaptação final do espaço amplo da capela àquilo que hoje é o edifício do teatro. Desde a sua fundação este velho teatro tem estado intimamente ligado à vida cultural de Montemor-o-Velho. De início, ora apanhando todas as companhias de teatro itinerantes, ora mostrando pequenas produções autóctenes, tinha uma utilização intenssíssima como se pode depreender dos muitos cartazes que nos chegaram até hoje. Como quase todas as salas de espectáculos das pequenas localidades, viu chegar o cinema e serviu de salão de baile, valendo-lhe para isso, o recurso a um engenhoso sistema de estrados. Em 1970 fundou-se o Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho que, desde logo, ocupou e utilizou este espaço, com a naturalidade de quem surge como força cultural representativa. O CITEC foi o herdeiro natural, digamos assim, do Montepio Recreio e Instrução, e foi nessa condição que também herdou o edifício. in, Memória Descritiva do Projecto de Arquitectura, Recuperação do Edifício do Teatro Esther de Carvalho Arquitecto José António O. Bandeirinha A ACTRIZ ESTHER DE CAVALHO Creatura excepcional em tudo, nas modas, no pensar, nos amores, nos triumphos que obteve, na nomeada que criou, na morte que a derruiu! Não foi como tantas outras uma revoltada contra a austeridade da familia e contra as conveniencias sociaes; foi simplesmente uma estouvada! uma bohemia! As temporadas dos banhos do mar na Figueira - a sua terra - eram como que lufadas da vida bulicosa das cidades, que lhe estonteavam a cabeça exaltada. Depois, seguia-se o inverno, com os seus dias nebulosos e de aguaceiros, os salões da assembléa desertos, sem luzes, sem musica, sem valsas e pelas ruas sombrias caminhando preoccupados os pescadores e os guardas da alfandega! Da praia, via a um lado o theatro fechado, como um casebre inutil, e no outro, lá em baixo, - na foz - deparava então com o oceano agitado, cujas ondas se espalmavam de encontro ás muralhas do forte, ruidosas como tiros de artilharia e despedindo para o ar jactos violentos de aguas espumosas... E a mãe e a avó vigilantes, em volta d'ella; esta a falar-lhe em doutrina do cathecismo, aquella, na lição de francez! - Ah! que demonio!... Precisava de acabar com tudo aquilo! Uf!... Que vida!... Por tanto, um bello dia desarvorou e veiu por ahi fóra, á tuna, em procura da arte e da bohemia, esse mundo ruidoso, em que ha applausos, champagne, beijos ardentes, ceias e couplets picantes e que, em nada se parece, com a vida tranquilla e burgueza do lar. Não voou do ninho paterno, de braço dado com o namorado gentil n'uma noite de luar, até uma pobre guarida, para d'alli em diante, felizes! - viverem de amor e de pão com manteiga! Qual história! Desassombradamente um belo dia, entrouxou alguma roupa, calçou os seus pés delicados n'uns sapatos grossos e de trouxa á cabeça e airosa como as padeiras de Avintes, desembaraçada e sem preconceitos, puchou pelo trinco da porta e bradou á familia assombrada: - Adeusinho! desconfio que tenho algum talento e uma voz afinada... estou rica e independente!... Haja saude! Não estou para os aturar! E partiu, senhora de si, pela estrada fóra, cantando alegremente em pleno sol, como um canario que se liberta da gaiola. No alto de Maiorca virou-se para as bandas da sua terra e fez-lhe um pied de nez. Mais adiante, em Coimbra, nos braços de um estudante - o primeiro adventicio - não atirou a sua touca para traz dos moinhos, mas pespegou-a para além dos choupaes que ladeam o Mondego e onde as rãas nas noites de estio grasnam, monotonamente, até deshoras. Todavia a viagem até á capital correu rapida e pittoresca. De resto, tomou folego n'um gabinete reservado do Silva do restaurant, em companhia de alguns bonifrates, e descançou de vez no palco da Trindade, em conversa amigavel com Francisco Palha, a quem mais tarde - como emprezario - poz as uvas em piza! Eis, a nova actriz Esther de Carvalho, dois meses depois d'estreiar-se ao lado do Ribeiro e do Augusto, a 31 de março de 1878, na operetta O cão de Malaquias. Cantou e venceu! O publico acceitou-a e cobriu-a de applausos e d'ahi por diante os triumphos contaram-se-lhe pelos papeis que desempenhou. As primeiras representações da Filha do Inferno, Dragões d'El Rei, Ultimo figurino, Perichole e Dragões de Villar, a ultima opera que cantou em Lisboa, foram noites de gloria para a notavel e gentil artista. Mas, a estima do publico, a consideração correspondente á sua crescente importancia artistica, nada d'isso a tolheu de seguir á redea solta a sua vida desenfreada. Nunca pertenceu ao numero d'essas actrizes pacatas e sissudas, que nas horas vagas do convivio das musas, dão a roupa ao rol da lavadeira ou fazem colchas de crochet para os leitos. Isso sim!... Apenas acabava o ensaio, logo que sahia do espectaculo, mettia-se na primeira tipoia de praça, e bate:… para o Dáfundo… para Carriche… para Cintra!… Pobre rapariga! Infeliz cabeça de vento! Sem tino para dirigir os seus negocios e rodeada de dificuldades monetarias, a ferro e fogo com a empresa do Trindade, e sequiosa… de mais e de muito mais… partiu para o Brazil na companhia de Ribeiro em julho de 1882. Ambos já lá estão, no mesmo cemiterio, proximos ainda um do outro, e - quem sabe?… - talvez satisfeitos agora pela tranquilidade da sepultura, elles, que em vida se amaram como vadios bulhentos e… delicados. Quando a fortuna lhes sorria, e que contavam enriquecer, morreu inesperadamente Ribeiro. Ella pranteou-o e se não cortou as formosas tranças… pelo menos esmoreceu! Teve ainda um impeto do seu temperamento buliçoso, quiz reagir contra o coração, fez-se emprezaria, lançou-se infrene nas patuscadas, nas ceias, mas em vez de conseguir o esquecimento, precipitou o desenvolvimento da doença terrivel, a tisica, que a consumiu! Afinal, a actriz Esther de Carvalho, essa estouvada e leviana rapariga que encheu Lisboa e o Rio de Janeiro com o echo das suas aventuras e estroinices, essa artista tão querida, rodeada sympathia das multidões, conscia do proximo fim, assignou tranquilla o seu testamento, em que legava as joias - toda a sua fortuna - á familia, de que fugira, repartindo-as pelos paes, que martyrisára, e pela avó, que abandonou! E então um dia, já bem disposta com o mundo e com Deus, confessada como qualquer burgueza boa christã, sentindo que a vida se lhe esvaia, pediu que a aproximassem da janella banhada pelo sol, e ahi, encarando a natureza uberrima e florescente da xacara, suspirou um adeus á folia e ao amor e deixou prender melancolicamente a cabeça adormecida pelo imperturbavel e feliz somno da morte. Pobre rapariga! Artigo de A. Mello para a revista Occidente nº 189 de 21 de Março de 1884 (data da morte de Esther de Carvalho) ESTHER DE CARVALHO A Igreja de S. Pedro e dos Clérigos, foi transformada no elegante e confortável Teatro do Infante D. Manuel, com uma lotação de cerca de trezentos lugares, e por cujo palco têm passado magníficas companhias de declamação e teatro ligeiro. Após o advento do regime republicano, passou a ter o nominativo de Esther de Carvalho, em homenagem à actriz montemorense que ilustrou os palcos de Portugal e Brasil. Chamava-se Esther Amélia da Costa Coutinho da Silva Carvalho e nasceu a 20 de Agosto de 1858. Era filha de D. Maria Amélia da Costa Côrte-Real e do bacharel António Augusto Coutinho da Silva Carvalho, natural de Montemor, e descendente do fidalgo Domingos Faial de Carvalho, que se notabilizou ao serviço de D. Afonso II que lhe concedeu brasão. Esther de Carvalho tentou ser professora; porém o seu feitio folgazão e a conduta libérrima que trilhara — nesses tempos tão reparada — prejudicaram a sua carreira no magistério. Enveredou, então, para o teatro; e, no dia 1 de Abril de 1880, estreou-se no Teatro da Trindade, de Lisboa, na opereta "O cão do Malaquias", que constitui um autêntico sucesso, causando grande entusiasmo no público. Dentro de poucos meses era considerada a primeira actriz de opereta, em Portugal. O Brasil seduzia-a; e em Julho de 1882 estava no Rio de Janeiro, onde se tornou tão notável que os seus admiradores formaram um partido que fez quase uma revolução na capital carioca! É que Esther de Carvalho era rival de Pepa Ruiz, grande artista argentina que para a florescente república também havia ido. Estherista e Pepistas andaram em luta constante, durante algum tempo dando lugar a muitos ferimentos e prisões. A certa altura tornou-se empresária; mas o trabalho exaustivo que levava, tuberculizou-a e faleceu. O seu funeral constitui uma profunda manifestação de pesar e os seus admiradores cariocas, em homenagem à sua memória, fundaram várias associações de recreio e socorros mútuos com o seu nome, algumas das quais ainda hoje subsistem. in "Terras de Montemor-o-Velho", Augusto Santos Conceição, Coimbra 1944 |
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